Outubro Rosa: câncer de mama pode deixar marcas, mas a dor não precisa ser uma delas

O tratamento do câncer de mama pode deixar marcas que vão além das cicatrizes. Dores persistentes após a cirurgia, alterações na sensibilidade, queimação, formigamento e desconfortos provocados pela quimioterapia, radioterapia ou hormonioterapia estão entre as consequências que podem comprometer a qualidade de vida das pacientes. Neste Outubro Rosa, mês dedicado à conscientização sobre o câncer de mama, o médico anestesiologista e especialista em Medicina da Dor, Diego Argolo, chama a atenção para uma questão que nem sempre recebe o devido destaque: a dor relacionada ao câncer e ao seu tratamento pode e deve ser avaliada e tratada.
Embora os avanços da medicina tenham ampliado as possibilidades de tratamento e sobrevivência, muitas mulheres continuam convivendo com dores que afetam o sono, a mobilidade, a saúde emocional e a capacidade de realizar atividades cotidianas. Em alguns casos, os sintomas persistem mesmo depois do término do tratamento oncológico.
Segundo Diego Argolo, é importante compreender que a dor não deve ser encarada como uma consequência inevitável da doença ou como um sofrimento que a paciente precisa suportar.
O especialista explica que diferentes mecanismos podem provocar dor durante a jornada oncológica. Alguns estão relacionados diretamente à doença, enquanto outros decorrem dos procedimentos e medicamentos utilizados para combatê-la. Identificar a origem do desconforto é fundamental para definir a melhor abordagem terapêutica.
Dor após a mastectomia pode persistir por meses ou anos
Entre as condições que merecem atenção está a dor persistente após a cirurgia de retirada da mama, conhecida como mastectomia. O procedimento pode provocar alterações nos nervos da região operada, resultando em sintomas como queimação, choques, pontadas, hipersensibilidade e dor na mama, na axila ou no braço.
Esse quadro também pode ocorrer após cirurgias conservadoras da mama, especialmente quando há lesão ou irritação de estruturas nervosas durante o procedimento.
Quando a dor persiste por mais de três meses, pode caracterizar uma condição de dor crônica pós-cirúrgica, que exige avaliação específica. O tratamento pode envolver medicamentos, fisioterapia, reabilitação e procedimentos intervencionistas, conforme as características e a intensidade dos sintomas.
Quimioterapia também pode provocar alterações nos nervos
Outra complicação possível é a neuropatia periférica induzida pela quimioterapia. Alguns medicamentos utilizados no tratamento do câncer podem afetar os nervos periféricos, provocando formigamento, dormência, queimação, choques e alterações da sensibilidade, principalmente nas mãos e nos pés.
Além da dor, essas alterações podem dificultar tarefas simples, como caminhar, abotoar roupas, segurar objetos ou manter o equilíbrio.
Os sintomas podem surgir durante o tratamento e, em algumas pacientes, persistir após sua conclusão. Por isso, o acompanhamento deve considerar não apenas o controle do câncer, mas também os efeitos que o tratamento provoca no organismo.
Radioterapia, metástases e hormonioterapia exigem atenção
A radioterapia, importante recurso no tratamento do câncer de mama, também pode provocar desconfortos. Entre os efeitos possíveis estão sensibilidade na região irradiada, alterações da pele, rigidez dos tecidos e, em alguns casos, fibrose e limitação dos movimentos.
Já nos casos em que o câncer se espalha para outras partes do organismo, especialmente para os ossos, a dor pode representar uma manifestação importante da doença. As metástases ósseas podem provocar dores persistentes, limitações funcionais e complicações que exigem acompanhamento especializado.
A hormonioterapia, frequentemente utilizada para reduzir o risco de recorrência em determinados tipos de câncer de mama, também pode estar associada a dores articulares e musculares. Esses sintomas podem interferir na qualidade de vida e dificultar a continuidade do tratamento.
Diego Argolo ressalta a importância de comunicar esses desconfortos à equipe médica, evitando a automedicação ou a interrupção dos medicamentos sem orientação profissional. Existem estratégias para investigar e aliviar os sintomas, preservando, sempre que possível, a continuidade do tratamento oncológico.
Medicina da Dor pode contribuir para a recuperação
O controle da dor relacionada ao câncer de mama pode exigir a atuação conjunta de diferentes profissionais, incluindo oncologistas, mastologistas, especialistas em Medicina da Dor, fisioterapeutas, psicólogos e profissionais de reabilitação.
A abordagem depende da origem, intensidade e características da dor. Entre as possibilidades terapêuticas estão medicamentos específicos, fisioterapia, exercícios orientados, acompanhamento psicológico e, em situações selecionadas, bloqueios de nervos e outros procedimentos intervencionistas.
O objetivo não é apenas reduzir o desconforto físico, mas também recuperar a autonomia, melhorar o sono, preservar a mobilidade e permitir que as pacientes retomem suas atividades com mais segurança e qualidade de vida.
Tradicionalmente associado à prevenção e ao diagnóstico precoce do câncer de mama, o Outubro Rosa também representa uma oportunidade para ampliar o debate sobre a assistência oferecida às mulheres durante e após o tratamento.
Para Diego Argolo, a atenção à dor deve fazer parte desse cuidado integral. Reconhecer os sintomas, investigar suas causas e oferecer tratamento adequado são medidas importantes para evitar que o sofrimento físico se torne mais uma barreira na recuperação.
A mensagem é especialmente importante para mulheres que concluíram o tratamento oncológico, mas continuam enfrentando limitações provocadas pela dor.
O câncer de mama pode deixar marcas, mas a dor não precisa ser uma delas. Nem sempre é possível eliminar completamente todos os sintomas, mas existem recursos capazes de proporcionar alívio, melhorar a funcionalidade e devolver qualidade de vida às pacientes.
Neste Outubro Rosa, o alerta é claro: o cuidado com o câncer de mama não termina no tratamento do tumor. A dor persistente merece atenção, investigação e acompanhamento especializado.

